proposta “Costurando Clima, Alimentando Memórias” nasce do encontro entre a campanha Fashion Revolution, a ação global Disco Soup, promovida pelo Slow Food, e a poética têxtil de Virgelina Chará. Inspirada em seu projeto Tela sobre Telas, onde retalhos descartados se transformam em narrativas coletivas, a atividade propõe um encontro que une moda, alimento e clima em uma experiência sensorial, política e afetiva, culminando na criação de um manifesto vivo ao longo de 2026.
Cada participante é convidado a trazer dois elementos: um retalho de tecido — de uma roupa antiga, esquecida ou carregada de memória — e um alimento ou ingrediente que poderia ser descartado, como ocorre nas ações da Disco Soup, que resgatam alimentos fora do padrão de consumo para transformá-los coletivamente em refeições. O encontro começa com uma roda de partilha, onde histórias emergem: de onde vem o tecido? Quem o produziu? Por que foi descartado? E o alimento — por que seria desperdiçado? Quem o cultivou? Essas narrativas revelam as conexões entre moda e sistema alimentar, evidenciando como ambos operam em lógicas de excesso, exploração e impacto ambiental.
Em seguida, realiza-se uma preparação coletiva inspirada na Disco Soup: os participantes cozinham juntos com os alimentos resgatados, celebrando o aproveitamento integral e o convívio. Enquanto cozinham, os tecidos e ingredientes são organizados em uma mesa sensorial, onde cores, texturas e cheiros se encontram. A proposta é criar associações entre matéria têxtil e matéria orgânica, refletindo sobre o estado dos ecossistemas: tecidos que lembram solos vivos ou degradados, alimentos que revelam abundância ou desperdício.
O momento central é a costura coletiva: guiados pela inspiração de Virgelina Chará, os participantes unem seus retalhos em um grande painel, uma colcha-manifesto em construção. Cada pedaço é transformado com bordados, escritas ou pigmentos naturais feitos dos próprios alimentos utilizados no preparo — como açaí, café, urucum ou beterraba. Em cada retalho, surgem frases que provocam reflexão e ação: “Quem fez minhas roupas?”, “Quem cultiva minha comida?”, “Por que descartamos tanto?”, “Que futuro estamos vestindo e comendo?”.
Ao final, a comida é partilhada em um gesto de comunhão, enquanto o tecido coletivo é erguido, vestido ou carregado como bandeira. Um manifesto construído a muitas mãos é lido em voz alta, conectando os temas da justiça climática, do consumo consciente e da valorização dos saberes locais. Comer e costurar tornam-se atos políticos e simbólicos.
Mais do que um encontro pontual, a proposta é que essa colcha-manifesto cresça ao longo de 2026, incorporando novos retalhos, histórias e territórios. Assim, transforma-se em um arquivo vivo que denuncia o desperdício — tanto têxtil quanto alimentar — e aponta caminhos regenerativos. A ação será conduzida pela rep local Socorro Almeida, ativistas do Slow Food Abaetetuba e Silvia Maia, rep da associação de agricultores de Vila de Beja.