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Índice de Transparência da Moda Brasil

EDIÇÃO CLIMA

A maior pesquisa de transparência climática da moda brasileira está no ar

O Índice de Transparência da Moda Brasil: Edição Clima, lançado em um momento em que o país se prepara para sediar a COP30, revela como as maiores marcas de moda que atuam no país lidam com a transparência em 5 áreas diferentes:
Emissões de carbono
Descarbonização e desmatamento zero
Aquisição e uso de energia renovável
Transição Justa
Rastreabilidade da cadeia de fornecimento
Os resultados expõem avanços pontuais, mas também um retrato alarmante de opacidade: a média geral de transparência entre as 60 marcas avaliadas foi de apenas 24%, ou seja, menos de um quarto dos pontos possíveis.

Emissões de carbono

O que não é medido não pode ser reduzido

Mais de 60% das marcas não divulgam inventários completos de emissões (Escopos 1, 2 e 3), informação considerada padrão em reportes globais de sustentabilidade.
Apenas 37% reportam dados do Escopo 3, responsável por 96% da pegada climática da moda.
Entre as poucas que divulgam, o total já soma 59,3 milhões de tCO₂e, mais do que as emissões anuais de Portugal. A real escala do problema, porém, segue desconhecida.
Se apenas 22 marcas emitem mais do que um país inteiro, qual seria a dimensão real ao considerarmos todas as empresas do setor?
Conheça os dados completos desta seção

Descarbonização e desmatamento zero

Transparência de metas de descarbonização mostra compromissos ainda insuficientes

Somente 27% das marcas publicam metas de descarbonização para os Escopos 1, 2 e 3 validadas pela Science Based Targets Initiative (SBTi), contra 55% no cenário global.
Das 16 marcas com metas verificadas, apenas metade assumiu metas absolutas no Escopo 3; as demais adotaram metas de intensidade (ex. por peça/ por real faturado), que podem permitir aumento nas emissões totais.
Além disso, apenas 7 das 16 marcas com metas de descarbonização reduziram emissões nos Escopos 1, 2 e 3; ou seja, só 12% mostraram avanços reais de redução de suas emissões no último ano com relação ao ano-base de suas metas.
No setor da moda, baseado na superprodução, essa abordagem é especialmente perigosa: o que importa para o clima é reduzir o volume absoluto de gases lançados na atmosfera.

Desmatamento Zero: biomas e comunidades sob risco

Embora a agropecuária e as mudanças de uso da terra respondam por grande parte das emissões de GEE no Brasil, 80% das marcas não possuem compromissos públicos e com prazo para o desmatamento zero em suas matérias-primas. Couro, algodão e viscose seguem associados à destruição da Amazônia e do Cerrado, afetando povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

Aquisição e uso de energia renovável

Transparência sobre uso e compra de energia renovável ainda é limitada e marcada por contradições

Das marcas analisadas, 45% divulgam o percentual do uso de energia renovável em suas operações, mas só 27% reportam dados de fornecedores, onde ocorre o maior consumo.
Mesmo entre as que publicam informações, a maioria se limita ao uso de certificados (RECs/iRECs), que pouco ampliam a oferta real de energia limpa e podem inflar artificialmente compromissos climáticos.
Cerca de 28% da energia do setor têxtil no Brasil ainda vem de gás natural e biomassa, fontes com impactos ambientais e sociais relevantes.
Essas fontes podem ser temporárias, mas não são solução definitiva.
A moda pode se eletrificar rapidamente, e o Brasil, com sua matriz elétrica renovável, tem chance de liderar a descarbonização do setor.

Biomassa e gás natural: risco de ficar preso em soluções transitórias

tRANSIÇÃO JUSTA

O elo mais frágil da transparência na moda

Esta foi a seção com pior desempenho: 65% das marcas não divulgaram nenhuma informação sobre como garantem que trabalhadores e comunidades não sejam deixados para trás.
Só 27% relatam ações de compensação a trabalhadores afetados por eventos climáticos — em geral, respostas pontuais às enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, sem estratégia de longo prazo.
Nenhuma marca publica investimentos em adaptação climática de fornecedores, e apenas 7% mencionam apoio financeiro à mitigação, quase sempre fora do Brasil.
Sem ação concreta, o custo da transição recai sobre quem menos ganha. Se as marcas querem demonstrar compromisso real, precisam investir de forma transparente e justa, tornando a justiça social um pilar central e inegociável da ação climática.
Conheça os dados completos desta seção

RASTREABILIDADE DA CADEIA DE FORNECIMENTO

Ainda precisamos perguntar #QuemFezMinhasRoupas

Apesar de avanços em transparência ao longo dos anos, grande parte da cadeia de fornecimento da moda segue opaca.
Hoje, 42% das marcas divulgam seus fornecedores diretos, 43% suas instalações de processamento e apenas 23% informam quem fornece suas matérias-primas — etapa com maior risco de desmatamento, exploração de trabalho e degradação ambiental.
Sem transparência sobre onde e como as roupas são feitas, não há como verificar se a moda protege biomas ou garante condições dignas de trabalho.
A falta de dados públicos dificulta assumir a responsabilidade climática, e com menos de cinco anos para o Acordo de Paris, não há mais tempo a perder.
JUSTIÇA CLIMÁTICA NA MODA:

COMUNIDADES E TRABALHADORES NO CENTRO

Embora não esteja dentro do escopo do ITMB - Edição Clima, o Instituto Fashion Revolution Brasil manifesta solidariedade aos povos indígenas e comunidades tradicionais, cujas terras, saberes e modos de vida são essenciais para a preservação dos ecossistemas e para o enfrentamento da crise climática. Territórios indígenas demarcados e protegidos comprovadamente mantêm as florestas em pé, reduzem o desmatamento e fortalecem a resiliência climática.
No contexto atual, sabemos que grandes projetos de energia renovável podem deslocar comunidades e perpetuar desigualdades se não houver reconhecimento de direitos territoriais e reparação histórica.
A verdadeira transição justa exige colocar as vozes e a liderança dessas comunidades no centro da construção de alternativas energéticas inclusivas e emancipadoras, que rompam com a lógica extrativista e coloquem a justiça climática como princípio fundamental.