Entre baobás, quilombos e benzedeiras: como uma pesquisa transforma ancestralidade em futuro a partir do olhar de Talita Azevedo

Mais da metade da população brasileira é negra, segundo o IBGE (2022). Ainda assim, ruas, monumentos, livros escolares e plataformas digitais continuam celebrando figuras brancas, enquanto a herança africana permanece invisibilizada. Esse apagamento não é casual: resulta de séculos de escolhas políticas que reduziram a presença negra à escravização, negando seu protagonismo científico, cultural e intelectual.
Como a tecnologia pode criar acervos à memória afro-brasileira?
Foi a partir dessa inquietação que surgiu o Presente Histórico, projeto da pesquisadora e empreendedora Talita Azevedo. A iniciativa combina tecnologia digital, oralidade e memória coletiva para mapear territórios afro-brasileiros esquecidos pela narrativa oficial.
“Nossa cartografia afetiva resgata histórias, personagens e saberes ancestrais – do baobá centenário da Ilha de Paquetá, no Rio, à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Salvador.”

Reconhecimentos e caminhos entre novas pontes
O projeto já marcou presença em feiras literárias como a Flip e a Bienal do Livro, além de render convites internacionais, incluindo o primeiro TEDx de Talita e o convite como embaixadora do Web Summit deste ano. Lançado inicialmente em formato de ebook e agora também disponível como impresso, o livro diário de bordo do Presente Histórico também narra a jornada de autoconhecimento da autora, após nove meses de expedições por comunidades quilombolas e territórios periféricos em quatro estados do Brasil.
Alguns dos lugares que a pesquisadora viajou
- Campinas (SP): potencialmente a última cidade do Brasil a abolir a escravidão.
- Itaúnas (ES): entre 1950 e 1970, a areia soterrava uma antiga vila. A população reconstruiu suas casas do outro lado do rio.
- Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia (BA): fundada em 1526, considerada a primeira igreja do Brasil, próxima a grandes pontos turísticos.
- Largo Terreiro de Jesus (BA): praça central para a memória histórico-cultural do país.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (BA): vinculada à Irmandade do Rosário, foi local de sepultamento da comunidade. Próxima à Casa do Rio Vermelho, frequentada por Jorge Amado e Zélia Gattai.
- Ilha de Paquetá (RJ): abriga Maria Gorda, um baobá presente desde o século XVII, próxima ao centro do Rio de Janeiro.
- Jardim Botânico (RJ): espaço dedicado à flora nacional, com estátua em homenagem a Ossain, orixá ligado à cura.
- Igreja do Rosário (RJ): espaço com homenagem a Anastácia, figura histórica feminina de destaque.
- Cais do Valongo (RJ): maior porta de entrada de pessoas escravizadas nas Américas, com cerca de 1 milhão de pessoas trazidas da África. Patrimônio Histórico da Humanidade (UNESCO).
- Rasa (RJ): bairro na zona litorânea marcada pelo tráfico de pessoas escravizadas na região de Búzios, parte da Região dos Lagos.
A ancestralidade e tecnologia oriundas da pesquisadora do interior paulista

Comunicadora social de formação, colunista e estrategista de inovação, Talita articula saberes afro-diaspóricos e tecnologias digitais emergentes para criar acervos participativos. Sua pesquisa dialoga com conceitos como epistemicídio – o apagamento de conhecimentos de determinados povos – e tecnologias sociais decoloniais, propondo metodologias que conectam ancestralidade e futuro.
“Ciência e tecnologia também se constroem a partir da inteligência regional e dos saberes ancestrais. O Brasil sempre foi berço de práticas sustentáveis e coletivas, sobretudo indígenas e afro-diaspóricas. Valorizar esses conhecimentos evidencia o protagonismo de criativos brasileiros na moda responsável, original e histórica. O Presente Histórico convida a enxergarmos isso no presente e a projetarmos futuros mais justos.”
Em um país que tantas vezes escolhe esquecer, lembrar é um ato de resistência. O Presente Histórico transforma memória em ferramenta de reparação, ampliando o direito da população negra de se ver – e de ser vista – nos espaços que habita.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião do Fashion Revolution Brasil.

Talita é uma pesquisadora, empresária e multiartista, fundadora da startup oná, com atuação em tecnologia, memória e inovação. Embaixadora do Web Summit no Brasil, desenvolve projetos de inteligência regional e cultura, e é autora de um banco de dados sobre lugares de relevância afro-diaspórica.