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56% dos brasileiros são negros, mas onde estão suas histórias nos mapas?

Lavagem escadaria, Campinas – Abril, 2025

Mais da metade da população brasileira é negra, segundo o IBGE (2022). Ainda assim, ruas, monumentos, livros escolares e plataformas digitais continuam celebrando figuras brancas, enquanto a herança africana permanece invisibilizada. Esse apagamento não é casual: resulta de séculos de escolhas políticas que reduziram a presença negra à escravização, negando seu protagonismo científico, cultural e intelectual.


Como a tecnologia pode criar acervos à memória afro-brasileira?

Foi a partir dessa inquietação que surgiu o Presente Histórico, projeto da pesquisadora e empreendedora Talita Azevedo. A iniciativa combina tecnologia digital, oralidade e memória coletiva para mapear territórios afro-brasileiros esquecidos pela narrativa oficial.

Lavagem escadaria, Campinas – Abril, 2025

Reconhecimentos e caminhos entre novas pontes

O projeto já marcou presença em feiras literárias como a Flip e a Bienal do Livro, além de render convites internacionais, incluindo o primeiro TEDx de Talita e o convite como embaixadora do Web Summit deste ano. Lançado inicialmente em formato de ebook e agora também disponível como impresso, o livro diário de bordo do Presente Histórico também narra a jornada de autoconhecimento da autora, após nove meses de expedições por comunidades quilombolas e territórios periféricos em quatro estados do Brasil.

Alguns dos lugares que a pesquisadora viajou

  • Campinas (SP): potencialmente a última cidade do Brasil a abolir a escravidão.
  • Itaúnas (ES): entre 1950 e 1970, a areia soterrava uma antiga vila. A população reconstruiu suas casas do outro lado do rio.
  • Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia (BA): fundada em 1526, considerada a primeira igreja do Brasil, próxima a grandes pontos turísticos.
  • Largo Terreiro de Jesus (BA): praça central para a memória histórico-cultural do país.
  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (BA): vinculada à Irmandade do Rosário, foi local de sepultamento da comunidade. Próxima à Casa do Rio Vermelho, frequentada por Jorge Amado e Zélia Gattai.
  • Ilha de Paquetá (RJ): abriga Maria Gorda, um baobá presente desde o século XVII, próxima ao centro do Rio de Janeiro.
  • Jardim Botânico (RJ): espaço dedicado à flora nacional, com estátua em homenagem a Ossain, orixá ligado à cura.
  • Igreja do Rosário (RJ): espaço com homenagem a Anastácia, figura histórica feminina de destaque.
  • Cais do Valongo (RJ): maior porta de entrada de pessoas escravizadas nas Américas, com cerca de 1 milhão de pessoas trazidas da África. Patrimônio Histórico da Humanidade (UNESCO).
  • Rasa (RJ): bairro na zona litorânea marcada pelo tráfico de pessoas escravizadas na região de Búzios, parte da Região dos Lagos.


A ancestralidade e tecnologia oriundas da pesquisadora do interior paulista

Boi Falô, Campinas – Abril, 2025

Comunicadora social de formação, colunista e estrategista de inovação, Talita articula saberes afro-diaspóricos e tecnologias digitais emergentes para criar acervos participativos. Sua pesquisa dialoga com conceitos como epistemicídio – o apagamento de conhecimentos de determinados povos – e tecnologias sociais decoloniais, propondo metodologias que conectam ancestralidade e futuro.

Em um país que tantas vezes escolhe esquecer, lembrar é um ato de resistência. O Presente Histórico transforma memória em ferramenta de reparação, ampliando o direito da população negra de se ver – e de ser vista – nos espaços que habita.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião do Fashion Revolution Brasil.


Talita é uma pesquisadora, empresária e multiartista, fundadora da startup oná, com atuação em tecnologia, memória e inovação. Embaixadora do Web Summit no Brasil, desenvolve projetos de inteligência regional e cultura, e é autora de um banco de dados sobre lugares de relevância afro-diaspórica.

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