Mais de 4 mil pontos de garimpo ilegal aceleram o desmatamento, a contaminação por mercúrio e a violência contra comunidades locais; a extração clandestina avança sobre a floresta e revela como a falta de transparência da cadeia produtiva do ouro mantém a conexão entre o garimpo ilegal, a indústria e o consumo.
O garimpo ilegal de ouro na Amazônia é uma crise ambiental, social e sanitária. A atividade se espalha por milhares de pontos de extração clandestinos e avança em áreas protegidas. Segundo levantamento da WWF-Brasil realizado para a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (ACTO/OTCA), existem mais de 4.100 pontos de garimpo ilegal espalhados pela Amazônia.
Entre 2023 e 2024, um relatório do Greenpeace apontou que apenas em quatro terras indígenas foram destruídos mais de 4.200 hectares de floresta pelo garimpo. O uso de mercúrio para separar o ouro agrava a emergência. Estimativas técnicas apontam para dezenas a centenas de toneladas de mercúrio circulando de forma irregular nos últimos anos. Altamente tóxico, esse metal contamina água, solo e ar, dispersando-se rapidamente pelos ecossistemas amazônicos. Ao se bioacumular na cadeia alimentar, especialmente em peixes, o mercúrio provoca danos neurológicos, cognitivos e de desenvolvimento, afetando de forma contínua e cotidiana populações ribeirinhas e indígenas, que têm na água e no peixe a base de sua subsistência.
Ao mesmo tempo, dados oficiais e estudos independentes registram queda na produção declarada de ouro após medidas de fiscalização e controles fiscais. A redução do volume formalizado mostra falhas históricas no controle da origem do metal e também uma migração do garimpo para rotas mais clandestinas.
O que está sendo feito
Nos últimos anos, autoridades federais e estaduais intensificaram operações de fiscalização e desintrusão. Investigações policiais recentes resultaram em apreensões de grandes lotes de ouro e desmantelamento de organizações criminosas que lavavam o metal com documentação falsa.
Medidas administrativas também foram adotadas. Desde 2024, houve exigência de notas fiscais eletrônicas para o ouro e o fim do princípio da “boa-fé” que permitia declarações de origem sem comprovação. Essas medidas reduziram a produção registrada em cadeia formal.
Historicamente, ONGs e organismos internacionais têm monitorado o avanço do garimpo e pressionado por auditorias em licenças e maior transparência na cadeia. Estudos científicos apontam ainda para falhas regulatórias que, ao invés de conter, chegaram a incentivar práticas predatórias.

Garimpo de ouro na região do Alto Tapajós, na Amazônia paraense. . Foto de Gustavo Basso para National Geographic.
Problemáticas envolvidas
Entre tantos conflitos e contradições, alguns elementos da cadeia do ouro aprofundam a crise socioambiental decorrente dessa extração.
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Lavagem e cadeia opaca. O ouro ilegal é frequentemente “lavado” por meio de empresas e documentos fraudulentos. O metal entra no mercado formal misturado ao ouro legal. Isso dificulta a rastreabilidade e responsabilização.
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Impacto socioambiental. Desmatamento local, alteração de cursos d’água e perda de biodiversidade são efeitos diretos. Em TIs, o garimpo agrava conflitos e violação de direitos.
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Saúde pública. O mercúrio utilizado persiste no ambiente. Exames em comunidades indígenas mostram níveis de contaminação preocupantes e efeitos neurológicos em crianças e adultos.
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Governança fragmentada. Órgãos federais, estaduais e municipais têm limites de atuação e coordenação insuficiente. Lacunas legais e falhas de fiscalização favorecem a impunidade.
Como a moda e o luxo se relacionam com o problema
A cadeia do ouro abastece joalherias e segmentos de moda e luxo. A falta de transparência na origem do metal permite que ouro extraído ilegalmente entre na produção de joias e acessórios. Embora parte do setor já busque certificação e rastreabilidade, práticas de mercado ainda permitem a mistura de fontes. A exigência de origem clara por marcas e consumidores é recente e incompleta. Esse cenário cria um risco reputacional e ético para empresas do setor.
Existem soluções práticas e combinadas para reduzir o garimpo ilegal e suas consequências.
Existem caminhos práticos e combinados para reduzir o garimpo ilegal na Amazônia e seus impactos socioambientais. O enfrentamento depende de ações regulatórias, inovação tecnológica, fiscalização e mudanças no mercado consumidor.
Rastreabilidade e tecnologia
Sistemas digitais de controle, registro eletrônico e certificações auditáveis são essenciais para reduzir a opacidade da cadeia do ouro. A eliminação do modelo de “boa-fé” na comprovação de origem já expôs irregularidades na produção declarada. Nesse campo, surgem iniciativas privadas que estruturam rastreamento completo do metal.
Entre elas está o YBY Bank, que implementou uma infraestrutura capaz de documentar cada grama de ouro e prata desde a originação até o destino final, conectando recicladoras, refinarias, joalherias e o mercado financeiro por meio de registros auditáveis. Esse tipo de modelo evidencia que a rastreabilidade pode ser operacional e escalável.
O YBY Bank é o primeiro banco de reuso de metais preciosos do Brasil — uma operação focada na purificação, reciclagem e reinserção responsável de ouro, prata e outros metais no mercado. Fundado com base na convicção de que transparência e origem verificável são requisitos, não diferenciais, o YBY Bank constrói uma cadeia que começa antes da fundição e termina com dados auditáveis entregues a cada cliente.
Economia circular
A reciclagem de metais reduz a demanda por novas frentes de extração. O ouro é infinitamente reciclável, sem perda de qualidade, e pode atender parte significativa do mercado. Programas privados de recompra de metais, refinarias especializadas e políticas públicas podem acelerar esse processo.
A atuação do YBY Bank, baseada exclusivamente em metal reciclado com documentação de origem, demonstra que é possível estruturar uma cadeia que não depende de novas áreas de garimpo. Iniciativas desse tipo ampliam a oferta de metal com procedência verificável e reduzem a pressão sobre territórios vulneráveis.
Como evolução natural dessa trajetória, nasce em 2026 o YBY Collective — uma plataforma digital de certificação e rastreabilidade para o mercado de metais preciosos reciclados. Mais do que uma ferramenta, o YBY Collective se propõe a ser infraestrutura: um sistema que transforma dados em confiança, e impacto em valor mensurável para toda a cadeia — de quem recicla a quem consome.
Fiscalização e cooperação institucional
O enfrentamento ao garimpo ilegal exige coordenação entre Polícia Federal, Ibama, ICMBio, ANM e órgãos de controle. Auditorias nas permissões de lavra, monitoramento das rotas comerciais e rastreamento financeiro são medidas necessárias para conter redes estruturadas de exploração. Sem integração, operações isoladas têm impacto limitado.
Saúde e remediação
A exposição ao mercúrio exige monitoramento epidemiológico e programas de atenção especializada. Áreas degradadas precisam de planos de remediação ambiental, e comunidades dependentes do garimpo necessitam de alternativas econômicas para reduzir a vulnerabilidade às redes ilegais.
Responsabilidade do mercado e do consumidor
Marcas de joias, moda e tecnologia devem adotar critérios mínimos de comprovação de origem e evitar compras sem documentação verificável. O uso de metal reciclado, aliado a sistemas de rastreamento, reduz riscos socioambientais e reputacionais. Consumidores também desempenham papel importante ao exigir transparência e certificações.
Um caminho possível
A soma dessas medidas pode vir a reduzir riscos e ampliar alternativas econômicas legítimas em regiões pressionadas pelo garimpo ilegal. A transição depende da ação coordenada do Estado, da sociedade civil e do setor privado, especialmente de iniciativas que estruturam cadeias verificáveis e afastadas da extração predatória.
Há exemplos práticos, já implementados, de modelos baseados em rastreabilidade e reciclagem, como o desenvolvido pelo YBY Bank, que mostram que é possível atender o mercado com segurança, transparência e menor impacto socioambiental.
Sem reformas estruturais, continuará a circular no varejo um ouro cujo custo real permanece oculto. Essa discussão é, hoje, parte central do debate sobre a Amazônia e sobre o futuro da economia da moda.
As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião do Fashion Revolution Brasil.
Texto por: Larissa Colombo. Estrategista de comunicação e CCO do YbY Bank. Ao lado da CEO e fundadora Mayara, constroem o posicionamento institucional guiado por liderança feminina, inovação e impacto socioambiental positivo.