Diferente do que você vai encontrar nos outros textos resumindo o que aconteceu na COP30, aqui trago um relato sobre a minha jornada enquanto mulher que saiu de Manaus e foi de barco até Belém. Uma viagem que transformou meu ativismo e minha perspectiva sobre mulher, moda e negociações climáticas.
Imagem: Marcelo Menezes (@menezesz__)
Culpa, felicidade, medo, cansaço, desapontamentos e uma força que eu desconhecia. Acho que assim posso resumir minha jornada até Belém, meus dias de atuação na COP 30 e na Cúpula dos Povos, bem como essa grande “ressaca” após tantos eventos. Mas, para explicar a raiz dessa força, preciso voltar um pouco e contar como a moda deixou de ser apenas “roupa” para virar minha ferramenta de luta.
Muito prazer, eu sou a Glícia (e essa é minha jornada)
Para quem chega agora, eu me chamo Glícia Cáuper, tenho 32 anos e sou cria do Norte. Minha formação original é no Direito, pela Universidade Federal do Amazonas, mas a vida me levou para o ativismo de moda, a comunicação de impacto e a produção cultural.
Minha história com o Instituto Fashion Revolution Brasil, onde atualmente exerço as funções de redatora e produtora de conteúdo, é fruto de uma construção intensa. Comecei em 2022 como voluntária, fui estudante embaixadora, tornei-me representante na minha cidade e, com muita dedicação, conquistei meu espaço na equipe oficial. Sei o quanto foi difícil me aperfeiçoar para estar num patamar próximo dessas mulheres que tanto admiro. E é maravilhoso ser validada profissionalmente por elas.
Mas, fora dessa bolha profissional, as coisas são bem diferentes.
Heranças Ancestrais: a princesa ingrata
Venho de um matriarcado de mulheres fortes — avó, mãe e tias — que veem o sacrifício pela família como a lei maior. Cresci sob o estigma contraditório da “princesa”: um rótulo que, na boca delas, não era elogio, mas uma acusação de que eu não ajudava o suficiente com as tarefas domésticas.
Essa acusação nunca desapareceu; na verdade, evoluiu. Hoje, ela se manifesta de outra forma. Para elas, se minha expertise em comunicação não está a serviço gratuito e irrestrito da casa, ela não tem valor. É como se essa expertise não fosse meu trabalho, mas uma “pequena ajuda” que eu faço para os outros e nego à minha própria família.
Além disso, a palavra moda, para elas, carrega o peso da estética colonizadora: a obrigação do corpo magro, do cabelo “feito”.
Quando digo que trabalho no Fashion Revolution, elas esperam ver uma boneca impecável, não entendendo que minha moda é decolonial e política. É uma dor fina sentir que, para as mulheres que eu mais amo, minha imagem nunca é suficiente. E pior, minhas palavras também não: parece que nunca consigo me fazer entender.
Da “Doutora” ao Propósito na Moda
Até pouco tempo atrás, eu não sabia qual era o meu papel no mundo. Criada em uma família de classe média em Manaus, cresci acreditando que o sucesso dependia de carreiras tradicionais. Cursei Direito, mas minha alma sempre respirou a criatividade que via nas minhas tias, integrantes da harmonia de uma escola de samba local, e na minha mãe artesã. Por anos, sufoquei minha criatividade, acreditando naquela velha história de que “arte não dá dinheiro”.
Levei 29 anos para entender que uma mulher fora do eixo Rio-São Paulo poderia, sim, viver de moda. Essa virada de chave aconteceu na pandemia, quando tive acesso a um curso de moda, online e gratuito: ao participar dele, vi um mundo novo se desenhando, com oportunidades com as quais eu nunca sequer tinha sido capaz de sonhar.
Ao mesmo tempo em que havia a magia de imaginar uma carreira realizadora, havia o desespero da comparação. Olhando para as trajetórias dos colegas de curso, só conseguia pensar que eu estava “atrasada”. Assim, entrei em uma imersão intensa em cursos, voluntariados e outros projetos. Hoje, a moda responsável se tornou minha vida e a causa que me move. Trocar a expectativa alheia pela minha verdade foi meu maior acerto, e sou muito mais feliz e realizada por isso.
Imagem: @sharp.freestyle
A Cronologia do Caos: A Travessia de Barco
Foi carregando essa bagagem de transformação pessoal que a oportunidade da COP30 surgiu. Para que vocês entendam a dimensão da correria e a intensidade dos fatos, acompanhem a linha do tempo:
-
O Convite (14 de outubro): O ativista Matheus Amazônia (que eu conhecia desde 2024, quando realizamos o curso Adaptajuv – do Greenpeace e Clima de Eleição) procurou meu namorado para organizarmos uma batalha de rima temática. Ante a ausência de verba inicial e por não conhecê-lo, meu namorado desconfiou, mas reconheci o Matheus e senti que precisávamos ajudá-lo.
-
A Articulação (16 de outubro): Dois dias depois, escrevi um projeto e consegui articular a ajuda de custo (via OXFAM Brasil/Associação Intercultural de Hip Hop Urbanos da Amazônia) para a realização da batalha.
-
A Corrida Contra o Tempo (3 a 5 de novembro): A batalha aconteceu numa segunda-feira, dia 3, e foi um sucesso absoluto, rendendo o convite para representarmos a cultura urbana amazonense na COP. A confirmação da viagem para Belém, porém, só chegou na quinta-feira, dia 5, às 18h.
-
O Prazo Final (8 de novembro): A saída do barco estava marcada para sábado de manhã, às 10 horas. Do momento em que soubemos que realmente iríamos viajar até a viagem em si, tivemos apenas um dia para organizar a vida.
A logística foi um teste de resistência, mas o embate emocional foi ainda mais duro. Enquanto eu passava a sexta-feira inteira lavando e passando roupas, correndo entre farmácia e supermercado, meu namorado enfrentava a pressão de vozes externas. Eram comentários dizendo que “um engenheiro não precisava viajar de barco”, como se a dignidade de um profissional pudesse ser medida pelo meio de transporte que ele se locomove, ou como se a conexão com a Amazônia real fosse um demérito.
Essas vozes deram a ele a “permissão social” para priorizar seu conforto, sua carreira. E o resultado? Ele decidiu me comunicar que não iria viajar no mesmo barco que eu às 4 da manhã de sábado. Eu, que não havia dormido esperando essa definição para ajudá-lo com as malas, me vi sozinha e exausta na madrugada.
Sinto que eu poderia passar pelo que fosse — ir de barco, de avião ou nadando. Nenhuma dessas vozes que tanto se compadeceu com ele, se compadeceria verdadeiramente por mim. Afinal, eu não estava indo na direção que elas julgam que “profissionais renomados” devam ir. Mas, independente de qualquer coisa, acordei às 6h e às 8h eu estava na área de embarque, como eu combinei com o Matheus. Fui só. Nada seria capaz de me fazer recuar, porque eu havia me comprometido e o compromisso é o que move um ativista.
A Travessia Solitária
Fiquei sozinha com as malas, o susto e o coração quebrado. Mas fui.
Entrei no barco dia 8 de novembro, às 10h. Após alguns dias de viagem, a embarcação apresentou problemas no meio do rio. Eu e o restante da tripulação precisamos trocar de barco. E, na sequência, enfrentamos forte turbulência.
Foram cinco dias de muito caos até atracar em Belém no dia 13 de novembro. Cheguei exausta, sem saber onde dormiria, com a vida pessoal em frangalhos. Mas, quando me deram o microfone, eu falei. Honrei minha história e o Instituto que represento.
Atuação em Rede: Vozes que Navegam e Conectam
Em Belém, entendi na prática o poder de agir em rede. Graças ao Fashion Revolution, que me ensinou a conectar coletivos, pude conjugar minha atuação no instituto com o coletivo Converge Amazônia. Acessei espaços fundamentais como a Cúpula dos Povos, a Green Zone e o barco Banzeiro da Esperança (da Fundação Amazônia Sustentável e Virada Sustentável).
Minha voz ecoou em painéis estratégicos:
- “Das periferias para o planeta: ativismo socioambiental como estratégia de justiça” (ocorrido no dia 14.11.2025, no Pavilhão Círculo dos Povos – Green Zone);
- “Diplomacia popular e governança territorial” (ocorrido no dia 17.11.2025, no Pavilhão do Pará – Green Zone);
- “Vozes que navegam – diálogos e trocas sobre a Amazônia na COP 30” (ocorrido no dia 20.11.2025 no Banzeiro da Esperança).
Mas minha atuação não foi só de fala; foi, acima de tudo, de escuta. No barco e na Cúpula, atuei como ouvinte das dores e conquistas de pequenos produtores: artesãos, crocheteiras, costureiras e mulheres indígenas. Nos painéis, meu papel foi amplificar a voz dessas pessoas com quem converso desde 2022. Levei o dia a dia delas para o centro do debate global.
Só há Justiça Climática com Justiça de Gênero!
Minha vivência no barco, na Cúpula dos Povos e na COP30 confirmou o que os dados já apontam: somos nós, mulheres, que estamos na linha de frente das soluções climáticas, mas também somos as mais impactadas pelas desigualdades.
Mulheres indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais já preservam a biodiversidade e garantem a segurança alimentar de seus territórios, mas ainda lutam para ter voz nos espaços de decisão.
Percebi que o ativismo climático, para a mulher, tornou-se mais um lugar de cuidado não remunerado. Além de cuidarmos da casa, dos filhos e dos idosos , agora também carregamos a responsabilidade de gerir a escassez, de proteger as sementes e de prevenir desastres.
Ao atuar como ouvinte em diversos painéis sobre a Economia do Cuidado, aprendi que essa foi mais uma responsabilidade que nós assumimos. Percebi que o ativismo climático, para a mulher, tornou-se mais um lugar de cuidado não remunerado. Além de cuidarmos da casa, dos filhos e dos idosos , agora também carregamos a responsabilidade de gerir a escassez, de proteger as sementes e de prevenir desastres. É uma extensão do trabalho doméstico para a escala global: somos as filhas criadas para a servidão, garantindo o meio ambiente saudável dos filhos criados para o sucesso.
Eu fui para a COP carregando o peso de ter que provar meu valor o tempo todo e em todos os âmbitos: familiar e profissional. E, em meio a isso tudo, uma das coisas mais dolorosas é perceber que, em 2025, o “cuidado” ainda é um dever compulsório para nós e um direito adquirido para eles.
Mas a coisa mais bonita é perceber a força, o cuidado e o amor feminino. No barco, quando me senti sozinha, não foi a “segurança masculina” que me acolheu. Foram outras mulheres. Foram as companheiras de viagem que cuidaram da minha alimentação e me deram suporte emocional. A sororidade foi meu colete salva-vidas e a prova viva de que as mulheres sustentam o tecido da resiliência comunitária.
Volto para casa com a certeza de que só há justiça climática com justiça de gênero. Me encho de orgulho e realização por fazer parte de um grupo que não espera o futuro chegar, mas que se move — de barco, a pé ou na caneta — para criar um mundo melhor. Nossa união não é apenas bonita; ela é a força política necessária para garantir que a transição para um futuro sustentável não deixe ninguém para trás.
Texto por: Glícia Cáuper redatora e produtora de conteúdo do Fashion Revolution Brasil; advogada e ativista da moda