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Vai chegar o dia em que vamos apenas “celebrar” o dia das mulheres?

Chegamos a mais um 8 de março com uma pergunta incômoda: vai chegar o dia em que vamos apenas celebrar o Dia das Mulheres?

Ao olharmos para as manchetes, a sensação é de um Brasil onde a dignidade feminina ainda é relativizada. Casos de feminicídio, violência sexual e decisões judiciais que ignoram a vulnerabilidade de meninas e mulheres pintam um cenário de urgência. É inegável que o peso dessas notícias nos cansa e nos frustra, mas é justamente no reconhecimento do caminho que já percorremos que encontramos o fôlego necessário para não recuar.

Nesse contexto, a moda, tantas vezes reduzida à superfície da estética, apresenta-se como uma ferramenta histórica de emancipação. Essa força política não é nova: a primeira greve geral do Brasil, em 1917, foi deflagrada pelas mãos das mulheres da indústria têxtil. Essa linhagem de resistência atravessa décadas, manifestando-se em figuras como Zuzu Angel, que transformou desfiles em denúncia contra a ditadura militar, e Vivienne Westwood, que levou a urgência climática e a rebeldia para o centro das passarelas. O ato de vestir, afinal, consolidou-se como um protesto, vide a histórica “Queima de Sutiãs” de 1968, que utilizou o vestuário para questionar a objetificação do corpo feminino.

Entretanto, nem tudo são flores no setor. Na indústria atual, as mulheres ocupam a maioria da base produtiva, representando 60% da força de trabalho têxtil no país (ABIT – Perfil do Setor 2024/2025/2026). Mesmo assim, são elas que enfrentam a face mais dura da precarização e a falta de redes de proteção contra o assédio. Por este motivo, precisamos questionar por que o comando financeiro e criativo das grandes marcas globais ainda é um espaço majoritariamente masculino. Além disso, precisamos lembrar que a jornada dupla e a sobrecarga de cuidado continuam sendo barreiras invisíveis que impedem artesãs e costureiras de priorizarem suas carreiras ou formalizarem seus negócios.

Para problemas sistêmicos, soluções coletivas

Se o cenário é desafiador, a resposta histórica das mulheres sempre foi a coletividade, e pelo Brasil inteiro, soluções autogeridas provam que a união transforma a realidade. Em São Paulo, o projeto Tereza Vale a Pena devolve a dignidade e gera renda para mulheres egressas do sistema prisional , enquanto a Diaconia, no Semiárido nordestino, fortalece a autonomia na agricultura familiar e o enfrentamento às violências.

Na mesma capital paulista, o Cemir acolhe e capacita costureiras imigrantes e refugiadas em situação de vulnerabilidade, muitas, inclusive, costureiras. Já no Agreste pernambucano, o Coletivo Mulheres do Polo organizaram uma rede própria para humanizar o chão de fábrica e combater a precarização das facções de costura.

Na Paraíba, o Coletivo Feminino da Rede Borborema resgatou o cultivo do algodão colorido agroecológico, garantindo autonomia política e produção sem veneno , ao mesmo tempo em que no Amazonas, a AMARN – primeira associação de mulheres indígenas do país – promove o protagonismo feminino através do artesanato e saberes tradicionais.

A história da moda e do trabalho nos ensina que as mulheres não esperam por concessões; elas criam sua própria liberdade. Celebramos este dia porque aprendemos que, quando agimos em conjunto, tornamo-nos a força inquebrável que transforma o mundo.

Texto por: Glícia Cáuper

Ativista, advogada e redatora Fashion Revolution Brasil

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