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Afinal, o que faz o nosso Carnaval brilhar de verdade?

Um mergulho na história das nossas fantasias para ressignificar o futuro da nossa festa.

 

O Carnaval é uma das maiores manifestações culturais do Brasil. É a festa da carne, do riso, da subversão e da sátira. É quando a rua vira casa e o povo, historicamente marginalizado, assume o trono.

Mas, se olharmos com atenção para a história, veremos que o carnaval também conta outra história: a da constante cooptação da alegria popular pela lógica do mercado que quer lucrar e se aproveitar da nossa alegria.

Historicamente, o que vemos não é apenas uma busca por diversão, mas uma tentativa recorrente das elites de civilizar, controlar e mercantilizar a alegria popular. O carnaval de rua, sujo, orgânico e coletivo, muitas vezes foi (e é) empurrado para as margens para dar lugar a uma festa “de vitrine”, moldada por padrões estéticos importados e, hoje, altamente industrializados.

Essa cooptação transformou rituais coletivos em produtos de prateleira. E o resultado ambiental disso nós vemos muito antes da Quarta-Feira de Cinzas.

 


 

 

A “civilização” da festa (ou: como o luxo venceu o lúdico)

 

Imagem: Banco de Imagens

 

Corta para o século XXI. A lógica da apropriação continua, mas agora a “civilidade” deu lugar à mercantilização.

O capitalismo percebeu que o Carnaval é uma vitrine poderosa e cooptou a estética da festa. Hoje, vemos essa tensão na avenida, onde postos de destaque em escolas de samba, espaços sagrados de comunidade e resistência, são, muitas vezes, ocupados por quem paga mais, em detrimento de quem vive o samba o ano todo.

Também vemos isso nos materiais e vestes da festa. A indústria do Fast Fashion nos convenceu de que, para fazer parte dessa festa, precisamos consumir a “tendência” da vez.

 

Aquele padrão de luxo dos antigos bailes foi traduzido para a linguagem do consumo de massa: saiu a seda, entrou o poliéster. Saiu o bordado manual, entrou o glitter de plástico.

E isso não aconteceu apenas com o folião: os grandes desfiles e símbolos históricos do carnaval, de Norte a Sul do país, precisam do plástico para fazer a festa acontecer, como se a única forma possível de reproduzir a festa fosse por meio desses materiais.

O mercado pegou a nossa criatividade ancestral (o reuso, a sátira, o improviso) e nos devolveu a obsolescência programada das fantasias.

O resultado dessa troca são números alarmantes:

  • Em 2019, o Brasil já figurava como o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo (WWF).
  • Só no Carnaval do Rio de Janeiro (2024), a Comlurb recolheu 1.258 toneladas de resíduos após a folia.

 


 

 

Resgatar nossa essência é preciso

 

A boa notícia é que a rua resiste. A nossa história também é feita de Zé Pereiras, de Cordões e de foliões que nunca aceitaram passivamente as regras do salão. O verdadeiro brilho do Carnaval brasileiro sempre veio da capacidade de fazer muito com pouco, de transformar a escassez em arte, de usar a sátira política como fantasia.

Quando questionamos essa necessidade de consumo desenfreado e o uso excessivo de plástico, não estamos querendo “acabar com a festa”. Estamos propondo retomar as rédeas dela. Estamos recusando o pacote “pronto e descartável” que a indústria nos vende.

 


 

 

O futuro pede passagem (e ele não é de plástico)

 

As soluções precisam ser sistêmicas! 

Sabemos que já existem movimentos que entenderam que a verdadeira vanguarda é olhar para trás e para a terra, recusando a lógica industrial imposta. 

Na cidade do Rio de Janeiro, o projeto Sustenta Carnaval recupera o descarte da Sapucaí e o coloca de volta na roda, sendo a prova de que a fantasia tem alma e pode viver muitas vidas.

 

Créditos: sustentacarnaval.br

 

Por sua vez, na cidade de Manaus, a creator Amanda Monteiro cria adereços com fibra de buriti, nos lembrando que o luxo verdadeiro vem da nossa biodiversidade, não de um contêiner de plástico importado.

Além disso, existem soluções como o bioglitter e os confetes de folhas naturais, que mostram que os patrocinadores dos grandes eventos têm, sim, como optar por materiais diferentes para proporcionar ao público.


 
Um carnaval responsável para as pessoas e para o planeta é possível

 

Imagem: Banco de Imagens

 

 

É hora da indústria absorver essas soluções!

 

Afinal, não cabe ao folião resolver sozinho uma conta que não fecha. Enquanto o mercado inundar as prateleiras apenas com poliéster barato e glitter de microplástico, a escolha individual será sempre limitada.

As iniciativas que destacamos aqui não devem ser vistas apenas como “alternativas de nicho”. Elas são bússolas. Elas provam tecnicamente que é possível produzir alegria sem destruir o planeta.

O que falta agora é vontade política e investimento corporativo para transformar essas exceções na regra do mercado.

Queremos um Carnaval onde a criatividade popular seja valorizada e onde a indústria seja responsabilizada pelos resíduos que gera.

 

O verdadeiro brilho da festa está na nossa capacidade de reinvenção coletiva, e não no plástico que a indústria nos empurra como única opção para celebrar a nossa alegria.

Texto por: Glícia Cáuper, redatora do Fashion Revolution Brasil

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