Pergunte ->
#QuemFezMinhasRoupas
#DoQueSãoFeitasMinhasRoupas
#ACorDeQuemFezMinhasRoupas

Circularidade na moda pode gerar efeito rebote se a produção de roupas continuar a crescer

Entenda o papel da segunda mão na extensão da vida útil das roupas e por que reduzir a produção de novas peças continua sendo fundamental para a circularidade.

Comprar em brechós, trocar, alugar, emprestar, consertar e reparar roupas são estratégias importantes para prolongar a vida útil das peças e manter produtos e materiais em circulação. Mas existe uma questão fundamental para entendermos o real benefício ambiental dessas práticas: a moda de segunda mão tem maior potencial de reduzir impactos quando substitui a compra de peças novas e, em escala, contribui para reduzir a demanda por novas produções.

Isso significa que aumentar a circulação de roupas não é, por si só, garantia de redução dos impactos ambientais. Uma atividade pode fazer produtos e materiais circularem por mais tempo e, ainda assim, não provocar uma redução equivalente na produção de bens novos.

Zink e Geyer (2017), ao discutirem o chamado circular economy rebound, ou efeito rebote da economia circular, chamam atenção justamente para essa questão. Segundo os autores, os benefícios ambientais das estratégias circulares dependem, entre outros fatores, de sua capacidade de deslocar a produção primária. Ou seja: produtos reutilizados, reparados, remanufaturados ou reciclados precisam efetivamente substituir, ao menos em alguma medida, produtos que seriam produzidos a partir de novos recursos. Quando isso não acontece, atividades circulares podem coexistir com a manutenção ou até com o crescimento da produção total, reduzindo parte dos benefícios ambientais esperados.

Na moda, podemos pensar em um exemplo bastante simples. Uma pessoa que antes comprava dez roupas novas em um intervalo de tempo, passa a comprar também roupas em brechós, mas continua adquirindo a mesma quantidade de peças novas. Nesse caso, houve aumento da reutilização e da circulação de roupas, mas não necessariamente redução da demanda por novas produções. A segunda mão foi adicionada ao consumo anterior, em vez de substituí-lo.

 

“Uma pessoa que antes comprava dez roupas novas em um intervalo de tempo, passa a comprar também roupas em brechós, mas continua adquirindo a mesma quantidade de peças novas. Nesse caso, houve aumento da reutilização e da circulação de roupas, mas não necessariamente redução da demanda por novas produções.” 

Outro exemplo que ajuda a entender como o efeito rebote pode acontecer é assim: imagine uma pessoa que dispõe de R$ 100 para comprar uma roupa. Ela poderia usar todo esse valor para comprar uma peça nova ou optar por uma peça de segunda mão por R$ 45. Nesse caso, os R$ 55 restantes poderiam simplesmente não ser destinados à compra de outra roupa, poderiam ser poupados ou utilizados para outras necessidades. Mas, se essa economia for usada para comprar mais uma peça, especialmente uma peça nova, a compra de segunda mão pode acabar estimulando um consumo adicional. É justamente um dos mecanismos discutidos por Zink e Geyer (2017): preços mais baixos de produtos secundários podem liberar recursos que, quando direcionados a novos consumos, podem compensar parte dos benefícios ambientais esperados com a circularidade.

A redução de preço pode ser um dos mecanismos do efeito rebote. Produtos de segunda mão, como itens reutilizados ou produtos remanufaturados, podem chegar ao mercado por preços menores, e essa redução pode ampliar o poder de compra disponível e estimular o consumo adicional. Outro problema é a substituição imperfeita: o produto circular entra no mercado, mas não necessariamente ocupa o lugar de um produto novo. Assim, os dois mercados podem crescer simultaneamente.

Isso não significa que comprar em brechós seja ambientalmente equivalente a comprar roupas novas, nem que a segunda mão não seja o melhor caminho atual para combater a lógica do excesso na moda. Significa que precisamos olhar para o efeito da prática sobre o sistema como um todo, e não apenas para a característica isolada de uma peça. É preciso repensar todo o sistema.

 

O problema também está na quantidade

Essa discussão se torna ainda mais importante quando observamos a escala do sistema têxtil atual.

O Circularity Gap Report Textiles 2024 estima que a indústria têxtil global utiliza cerca de 3,25 bilhões de toneladas de materiais por ano e apresenta um índice de circularidade de apenas 0,3%. Mais de 99% dos materiais utilizados pelo setor, portanto, são provenientes de fontes virgens. O relatório também estima que fibras sintéticas derivadas de combustíveis fósseis, como o poliéster, representam cerca de 63% das matérias-primas utilizadas na produção têxtil (Circle Economy, 2024).

O relatório aponta ainda para um modelo marcado por ciclos cada vez mais rápidos: marcas de moda rápida podem lançar até 24 coleções por ano (mas sabemos que lançam bem mais do que isso), enquanto aproximadamente 30% das peças produzidas não são vendidas (Circle Economy, 2024). Nesse cenário, discutir sustentabilidade na moda exige discutir não apenas quais materiais utilizamos ou o que fazemos com uma roupa no fim de sua vida útil, mas também quantas roupas estão sendo produzidas.

É justamente por isso que estratégias como reuso e reciclagem não deveriam funcionar apenas como mecanismos capazes de administrar volumes crescentes de produtos e resíduos. Uma transição efetiva precisa atuar também sobre a entrada de novos materiais e produtos no sistema.

O próprio Circularity Gap Report Textiles aponta nessa direção, ao analisar seis estratégias para tornar o sistema têxtil mais circular, envolvendo a redução da produção e do consumo, o aumento do tempo de uso das roupas, a reutilização, o reparo, a reciclagem têxtil e mudanças nos materiais utilizados. Entre os cenários analisados, tiveram papel especialmente relevante as estratégias voltadas à redução da produção têxtil, ao menor consumo, ao aumento da durabilidade das peças e à adoção de modelos associados à moda lenta. Quando combinadas, as seis estratégias poderiam reduzir diferentes impactos ambientais do setor entre 35% e 50%, no cenário mais ambicioso (Circle Economy, 2024).

 

Mas ainda é preciso usar o que já existe por mais tempo

Aumentar a vida útil das roupas é sim uma parte importante dessa transformação. A WRAP identifica a extensão da vida útil das roupas como uma das principais oportunidades para reduzir as pegadas de carbono, água e resíduos associadas ao vestuário. Quando uma roupa permanece utilizável por mais tempo e é substituída com menor frequência, diminui a necessidade de novos produtos e dos recursos empregados em sua fabricação (WRAP, 2016).

E culturalmente a segunda mão tem muita força. Além dos impactos que podem ser evitados ao prolongar a vida útil das roupas, as práticas de segunda mão também têm um papel importante na construção de uma cultura de cuidado, manutenção e reparo. Práticas circulares na moda ajudam a questionar uma lógica de consumo baseada na rápida substituição e no descarte e a transformar a maneira como atribuímos valor, tempo e cuidado às coisas que já existem.

 

Culturalmente a segunda mão tem muita força. Além dos impactos que podem ser evitados ao prolongar a vida útil das roupas, as práticas de segunda mão também têm um papel importante na construção de uma cultura de cuidado, manutenção e reparo.

Muitas dessas práticas, inclusive, não são novas. Repassar roupas entre familiares, usar peças que foram de irmãos mais velhos, ajustar uma roupa para um novo corpo, remendar, reformar, guardar, trocar e compartilhar fazem parte de práticas ancestrais e cotidianas de diferentes comunidades, muito anteriores à ideia contemporânea de “moda circular”. Fortalecer e resgatar essas práticas ancestrais também pode ajudar a construir uma cultura menos orientada pelo excesso e pela descartabilidade. 

Mudanças culturais, quando se tornam coletivas, podem influenciar comportamentos, expectativas sociais e até aquilo que passamos a exigir das marcas, do varejo e do poder público.

A pergunta ambientalmente relevante não é apenas “essa peça é de segunda mão?”. Também precisamos perguntar: “essa peça está substituindo uma roupa nova que seria comprada?”, “ela está aumentando o tempo de uso de algo que já foi produzido?” e, olhando coletivamente, “essa prática está contribuindo para reduzir a demanda por novas produções?”

 

A responsabilidade não pode ficar apenas no consumo

Ao mesmo tempo, seria um erro transformar essa discussão em mais uma lista de responsabilidades individuais. As escolhas de consumo não acontecem no vazio, elas são influenciadas pela oferta disponível, pelos preços, pela publicidade, pelas tendências, pelas redes sociais, pela velocidade das coleções e por modelos de negócio estruturados justamente para estimular a compra frequente e a rápida substituição das roupas. Por uma cultura do consumo e do descarte. Se a indústria continua aumentando os volumes produzidos e o varejo continua construindo suas estratégias em torno do crescimento permanente das vendas, não podemos esperar que a transformação do sistema dependa exclusivamente de cada pessoa conseguir “consumir melhor”.

Inclusive, Zink e Geyer (2017) alertam que simplesmente esperar que empresas privadas encontrem oportunidades lucrativas dentro da economia circular pode não ser suficiente para garantir seus benefícios ambientais. Os próprios mecanismos econômicos podem gerar efeitos rebote quando produtos circulares ampliam mercados sem efetivamente deslocar a produção primária. Alerta de greenwashing.

Por isso, a transformação precisa ser coletiva, organizada e sistêmica. Ela envolve cidadãos consumidores, mas também exige responsabilização da indústria e do varejo pelos volumes colocados no mercado, modelos de negócio que priorizem durabilidade, reparabilidade e reuso, comunicação e marketing que não estimulem permanentemente o hiperconsumo, mídias e influenciadores capazes de questionar a normalização da compra excessiva e construir pensamento crítico no cidadão antes de se denominar consumidor, infraestrutura para reparo, reutilização, coleta e redistribuição, e políticas públicas que criem regras, incentivos e mecanismos de responsabilização capazes de favorecer a redução efetiva dos impactos socioambientais e incluir profissionais do ecossistema de segunda mão diminuindo vulnerabilidades e desigualdades.

 

Se a indústria continua aumentando os volumes produzidos e o varejo continua construindo suas estratégias em torno do crescimento permanente das vendas, não podemos esperar que a transformação do sistema dependa exclusivamente de cada pessoa conseguir “consumir melhor”.

A moda de segunda mão, portanto, não deveria crescer apenas como mais um mercado de consumo coexistindo com volumes cada vez maiores de produção de roupas novas. Seu potencial transformador está justamente em ajudar a construir outra relação com aquilo que já existe: fazer as roupas permanecerem em uso por mais tempo, reduzir sua substituição e contribuir para diminuir a necessidade de produzir continuamente novas peças.

Circular mais não pode significar simplesmente consumir mais.

Para transformar efetivamente o sistema, precisamos fazer circular o que já existe enquanto, ao mesmo tempo, enfrentamos a quantidade e a velocidade com que o novo continua sendo produzido e estimulamos cidadania e pensamento crítico.

Referências

  1. CIRCLE ECONOMY. Circularity Gap Report Textiles. 2024.
  2. WIPRÄCHTIGER, Maja; RAPP, Martina; HELLWEG, Stefanie; SHINDE, Rhythima; HAUPT, Melanie. Turning trash into treasure: an approach to the environmental assessment of waste prevention and its application to clothing and furniture in Switzerland. Journal of Industrial Ecology, v. 26, n. 4, p. 1389–1405, 2022. DOI: 10.1111/jiec.13275.
  3. WRAP – Waste and Resources Action Programme. Design for Extending Clothing Life. 2016.
  4. ZINK, T.; GEYER, R. Circular Economy Rebound. Journal of Industrial Ecology, v. 21, n. 3, p. 593–602, 2017. DOI: 10.1111/jiec.12545.

Texto por: Marina de Luca

Coordenadora de Mobilização Instituto Fashion Revolution Brasil; Pesquisadora da Universidade Federal da Bahia – MAASA; Fundadora do Moda Limpa

 

POSTS RELACIONADOS

Circularidade na moda pode gerar efeito rebote se a produção de roupas continuar a crescer
Setembro de Segunda Mão 2026: campanha nacional quer impulsionar a cultura da circularidade nas cidades brasileiras
O futuro da moda está mudando junto com as juventudes
Por dentro de um centro de triagem têxtil: como roupas ganham uma segunda chance
Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha: qual futuro as mulheres da moda estão costurando a partir do fio das suas ancestralidades?
Do orgulho ferido ao futuro ancestral: o que Barcelos, cidade do interior do Amazonas, ensina sobre a urgência de valorizar a moda feita no Brasil
O greenwashing não é só uma “mentira de marketing”: ele desmonta, por dentro, as próprias narrativas de mudança
Pare o tsunami de plástico: Fashion Revolution Brasil apoia campanha para reduzir o uso de plásticos desnecessários no Brasil
Fórum Modativismo: uma experiência completa para debater moda, representatividade das mulheres negras e ativismo