Entre as feridas da identidade nacional e a potência do Festival do Peixe Ornamental, uma reflexão sobre a alta-costura comunitária que nasce no interior do Amazonas. A sabedoria popular sempre alertou: “notícia ruim chega rápido”. Mas, em algum momento, ela também explicou por que essas narrativas parecem reverberar muito mais do que as boas notícias? Em 2026, ano de derrota na Copa do Mundo e de escolhas políticas complexas, um sentimento de orgulho ferido parece tomar conta do Brasil. Lembra de quando tínhamos a certeza de que “o melhor do Brasil é o brasileiro”? Agora, tudo aquilo que tínhamos orgulho de ser: um povo alegre, cortês, criativo, acolhedor e gentil, parece ter se dissipado no ar. Nos tornamos uma sociedade dividida e com pouca fé em boas mudanças. Romper esse ciclo vai demandar tempo. Diante disso, é inevitável sentir um desejo genuíno por soluções rápidas para nos recuperarmos. O problema é que a nossa autopercepção sempre foi um desafio estrutural, historicamente marcado pela “síndrome de vira-lata” que nos fazia admirar o de fora em detrimento do nosso próprio valor, um distanciamento ainda mais complexo para quem vive no Norte do país. Na moda, a gente também vê esse reflexo de forma nítida: passamos décadas consumindo referências eurocêntricas e ignorando a potência têxtil e estética que nasce nas nossas próprias bases comunitárias. Eu mesma lembro de, na juventude, economizar para ir ao Rock in Rio e de sonhar em ter itens de grandes marcas internacionais, mas não me recordo de ter tido a curiosidade de conhecer a moda e os festivais do interior do meu estado. Manifestações tão cheias de vida, riqueza e singularidade, acontecendo bem do meu lado, e eu sequer ouvia falar delas. Precisei amadurecer para querer, de fato, mapear a minha região e as suas maravilhas. Hoje, cada oportunidade de adentrar o Amazonas é um privilégio que não deixo passar, o que acabou me levando recentemente a Barcelos. Situado à margem direita do Rio Negro, a 405 km de Manaus, Barcelos é o segundo maior município em extensão territorial do Brasil. Mas sua grandiosidade vai muito além dos números geográficos ou do título histórico de primeira capital do Amazonas. Conhecida mundialmente como a Capital Internacional da Pesca Esportiva e o maior polo exportador de peixes ornamentais do país, a cidade guarda nos seus bastidores uma das engrenagens criativas mais fascinantes da Amazônia. De um lado, o Peixe Cardinal, com suas cores vibrantes em azul e vermelho; do outro, o Peixe Acará-Disco, defendendo o amarelo e o preto. É uma apoteose que se assemelha à dinâmica de Parintins, mas moldada pela identidade única dos barcelenses. Se a gente insistir em olhar para a moda apenas através das vitrines tradicionais e do eurocentrismo, deixamos de ver onde a verdadeira inovação acontece: nas bases comunitárias. Para colocar o Cardinal e o Acará-Disco na arena, a cidade exige uma produção têxtil monumental. São meses de trabalho onde as costureiras locais atuam como verdadeiras mestras de ofício, transformando o saber compartilhado em trajes, alegorias e fantasias grandiosas que narram a preservação da floresta. Barcelos é o exemplo vivo de uma moda que respeita o tempo do território, gera impacto econômico real e descentralizado, e devolve a dignidade a quem produz. É a prova de que a moda do interior do Amazonas não é apenas estética; é uma ferramenta de resistência, sustentabilidade e identidade. Se a derrota no futebol e as incertezas políticas trouxeram sensações que vão além da tristeza, o interior do meu estado me fez renovar o orgulho de ser brasileira! O verdadeiro luxo é nosso, é forte e é ancestral. E ele já está sendo costurado pelas mãos que sustentam a floresta. Texto por: Glícia Cáuper Redatora e produtora de conteúdo O despertar para a nossa própria terra
Onde a festa popular se transforma em alta-costura regional
Em Barcelos, a cultura ferve através do Festival do Peixe Ornamental de Barcelos (FESPOB). Criado em 1994 para celebrar a biodiversidade e homenagear a vida de pescadores, caboclos e piabeiros, o festival divide a cidade em uma disputa histórica e apaixonada na Arena Piabódromo.
E é no coração dessa festa que Barcelos dá uma aula para o mercado de moda global.O luxo sustentável que nasce da floresta
Soma-se a isso a riqueza dos biomateriais da região. O manejo preciso e o trançado do artesanato indígena em piaçava, como o trabalho belíssimo desenvolvido pelo Núcleo de Arte e Cultura Indígena de Barcelos (NACIB – @nacib_am), transformam elementos da natureza, como fios de piaçava, em artigos de design potente e autêntico.