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Por dentro de um centro de triagem têxtil: como roupas ganham uma segunda chance

Visitar um centro de triagem é uma maneira de compreender a complexidade por trás da circularidade da moda. Conheça um pouco da experiência

Estender a vida útil das roupas que existem é uma das estratégias que pode gerar mais benefícios ambientais, depois de diminuir a superprodução, porém não é nada simples como parece. Exige muito trabalho e envolve muitos profissionais diferentes.

Já existem iniciativas bem importantes que estão fazendo um trabalho interessante, profissional e de muito impacto para evitar que as roupas que já estão em uso terminem no aterro sanitário, como o projeto Repense Reuse da Humana Brasil.

O projeto nasceu há 5 anos em Salvador/BA, e hoje já funciona também em Recife/PE, Aracaju/SE e Feira de Santana/BA, com previsão de expansão para Fortaleza/CE.

Com uma forte equipe de aproximadamente 130 funcionários/as, e hoje com 550 coletores espalhados em espaços públicos como praças, parques e universidades federais, e privados como shoppings e outras empresas, em 2025 foram coletadas 812 toneladas (T) de têxteis, sendo 561 T reinseridos no ciclo como roupas em uso mesmo, e encaminhado o restante para outros processos, tornando o projeto lixo zero, ou seja, zero itens encaminhados para aterro sanitário.

No galpão atual de triagem, que está prestes a se mudar de endereço para um galpão maior, as vans de logística entregam as peças que foram retiradas dos coletores, em grandes sacas resistentes, e é lá que parte da mágica, quer dizer, do trabalho árduo, acontece. As peças são triadas respeitando a seguinte hierarquia: 1ª qualidade são peças possíveis de revender nas 4 lojas do projeto, entram aqui também as peças que precisam de algum pequeno reparo, pois o próprio projeto conta com uma oficina de costura liderada por Ana Lícia, que faz reparos e upcycling, mandando mais peças para as lojas.

Visita ao centro de triagem – Humana Brasil – Salvador, Bahia

A 2ª qualidade são peças que não podem ser vendidas, mas que ainda estão em condições de uso, então são separadas, pesadas e destinadas a doação. Frequentemente comunidades do interior ou de outros locais enviam caminhões ou carros até aplicativos para retirar as doações, e levam para pessoas que têm pouco ou nenhum acesso a roupas. Além disso, os cuidadosos e atentos funcionários do galpão também separam itens específicos quando recebem algum pedido, como roupas de bebês RN para pessoas que estão prestes a dar à luz, ou lençóis para ações sociais com pessoas em situação de rua.

Por último, as peças que não se enquadrarem em nenhuma das qualidades acima são encaminhadas para coprocessamento, ou seja, queimadas para gerar energia através do calor, substituindo combustível fóssil, na indústria cimentícia local.

A ordem adotada pelo centro de triagem, priorizando revenda, seguida por reparo, doação e, somente quando não há outra alternativa, o coprocessamento, demonstra, na prática, a aplicação da hierarquia da Produção mais Limpa (P+L). Perspectiva que busca preservar ao máximo a função original dos produtos, priorizando estratégias de prevenção da geração de resíduos e de prolongamento da vida útil antes de recorrer à reciclagem ou à recuperação energética. Assim, a revenda, o reparo e a doação mantém o maior valor ambiental, econômico e social das peças, enquanto o coprocessamento representa uma alternativa de menor prioridade, destinada apenas aos materiais que não podem mais ser reutilizados ou reciclados.

Algumas marcas de moda brasileiras já contam com seus próprios centros de triagem, outras recebem peças em coletores e encaminham para triagem em empresas terceirizadas.

Visitar um centro de triagem é uma experiência marcante

Visitar um centro de triagem no Brasil foi uma experiência marcante para todo o grupo que acompanhou, entre equipe núcleo e voluntárias do Fashion Revolution Salvador. Uma oportunidade ainda rara no país, que conta com poucos centros de triagem comparado à quantidade de resíduo têxtil pós consumo gerado.

Algumas marcas de moda brasileiras já contam com seus próprios centros de triagem, outras recebem peças em coletores e encaminham para triagem em empresas terceirizadas como a Retalhar. Não há um número oficial de centros de triagem brasileiros, mas na Europa e no Reino Unido, mapeamentos da indústria já identificaram mais de 200 empresas e instalações focadas na triagem e no processamento prévio de têxteis (WRAP), e há empresas internacionais que fazem a triagem em mais de 40 países diferentes.

Os centros tradicionais dependem fortemente de trabalho manual. No entanto, o setor está passando por uma modernização com a adoção de triagem automatizada e inteligência artificial para otimizar o processo e separar as roupas por tipo de fibra (ROBINSON et al., 2026).

Na visita ao Repense Reuse, a triagem é manual, e tivemos a oportunidade especial de conhecer e conversar com pessoas que dedicam seus trabalhos a melhorar o planeta. No setor de roupas conhecemos Adenildes, muito rápida na sua triagem, apelidada carinhosamente de “terror dos coletores” pois finalizava a triagem antes mesmo de chegarem mais vans e carros com as peças trazidas dos coletores naquele dia. 

Conhecemos também Leonardo e Susana, que trabalham na triagem de calçados, setor que era um grande desafio para o centro de triagem, que antes da contratação deles acumulava sacos e sacos de calçados (acredito que chegaram a acumular 500 pares), mas que hoje é um setor rápido e muito organizado. Hoje, inclusive, o setor recupera mais calçados do que nunca, pois Leonardo recebeu da Humana Brasil um curso profissionalizante de sapateiro, e agora faz limpeza e pequenos reparos, resgatando peças incríveis que iriam para descarte. Isso prova que pequenos reparos podem alterar significativamente o destino final de um produto e a qualificação técnica amplia a capacidade de recuperação dos itens e reduz o volume encaminhado ao coprocessamento, evidenciando o papel estratégico dos serviços de reparo dentro da economia circular.

Na europa, onde a prática já é mais antiga, o tempo de triagem por peça chega a ser controlado com a meta de 4 segundos por peça, focado em conseguir o preço mais baixo possível na revenda das peças avulsas ou em fardos . Aqui no Brasil, cada centro de triagem trabalha da sua forma, como no Repense Reuse, que trabalha com metas por Kg. No dia da visita chegamos lá às 15 horas e a meta já havia sido batida desde meio-dia.

O Instituto Fashion Revolution Brasil tem a sorte de contar com o voluntariado de Renata Souza na equipe local de Salvador. Renata trabalha na Humana Brasil, responsável pelo setor educacional do Repense Reuse, trazendo em sua experiência anos de trabalho em centros de triagem e projetos de moda circular na Europa e América do Norte. Aqui no Brasil, ela passa seus dias palestrando, conversando, articulando e conscientizando mais e mais locais sobre a importância e as melhores formas de doar as peças que não são mais usadas.

Renata é daquelas pessoas que você dá um bom dia e ela já responde: “não sei a ideia que você vai propor, mas eu topo!” E foi através dela que nossa equipe teve a chance de conhecer o centro de triagem em Lauro de Freitas/BA, e que também o núcleo voluntário do Fashion Revolution Salvador realiza tantas ações em parcerias como encontros de troca, mutirão de reparo, oficinas e outras atividades, como as que estão sendo preparadas para a campanha Setembro de Segunda Mão 2026 (acompanhem as redes sociais do @fash_rev_brasil para saber mais).

Conhecendo tantos profissionais e funções diferentes, ficou evidente que a economia circular é intensiva em trabalho humano. Cada peça reaproveitada depende de sucessivas etapas de coleta, transporte, triagem, inspeção, limpeza, reparo, armazenamento e redistribuição, realizadas por profissionais especializados.

Economia Circular: um trabalho fundamentalmente humano

Conhecendo tantos profissionais e funções diferentes, ficou evidente que a economia circular é intensiva em trabalho humano. Cada peça reaproveitada depende de sucessivas etapas de coleta, transporte, triagem, inspeção, limpeza, reparo, armazenamento e redistribuição, realizadas por profissionais especializados. Ou seja, prolongar a vida útil das roupas demanda investimentos contínuos em infraestrutura, qualificação profissional e logística.

No cenário nacional existem alguns números divulgados em sites de empresas privadas e terceiro setor, que mostram como esse ecossistema está se construindo. Os dados variam de 32 a 388 toneladas de peças coletadas.

O Exército da Salvação em São Paulo/SP, uma organização importante e pioneira do terceiro setor que existe há 160 anos, e há 25 anos trabalha com o “Programa de Bazares Beneficentes”, conhecido como Salvashopping, coletando e recebendo roupas e calçados usados, reverte o lucro das revendas em apoio à programas sociais da própria organização. Com 120 pontos de coleta e aproximadamente 300 coletas gratuitas de doações por dia, em 2025  arrecadou 388 toneladas de roupas.

Já uma varejista de moda declara em seu site que desde 2017 coletou 114 toneladas de roupas com coletores presentes em aproximadamente 70% de suas lojas pelo Brasil. Em 2025 70% das peças foram doadas, 18% recicladas para produção de estopas e 12% desfibradas, recicladas para novos tecidos usados na coleção da própria marca. Já outra grande varejista declara que desde 2017, contando com 330 pontos de coleta, foram recebidas 43 toneladas de roupas, que foram encaminhadas para reciclagem, reutilização por upcycling ou doação.

A triagem das peças é um trabalho fundamentalmente humano

A grande variação entre os volumes coletados por diferentes organizações indica que a infraestrutura de coleta, por si só, não determina os resultados. Estratégias de comunicação, educação ambiental, facilidade de acesso aos coletores e relacionamento com a comunidade parecem exercer papel decisivo na adesão dos consumidores. Coletores colocados em espaços públicos acompanhados de palestras e ações educacionais surtem um tipo de efeito, enquanto coletores colocados dentro de lojas vendendo mais roupas, podem ter outros efeitos. Há marcas de moda que oferecem desconto em suas peças caso o consumidor decida trazer alguma peça antiga para “doar”, mesmo se for de outras marcas, ou outras marcas que só recebem algum tipo de produto, por exemplo meias. Uma marca brasileira de meias publicou que, em mais de dez anos, recebeu 1,8 milhões de meias reciclando 32 toneladas transformadas em 55.742 cobertores que foram doados.

Em São Paulo e região a coleta ou entrega também pode ser iniciada de forma digital. Através do App Cotton Move, desde 2014 quando foi fundado, foram 325 toneladas de resíduos têxteis que geraram 750 mil peças de roupas desenvolvidas usando fibras recicladas e 32 mil produtos feitos a partir do upcycling.

Centros de triagem são uma infraestrutura indispensável para aumentar a circulação de roupas usadas e evitar o envio aos aterros sanitários. Entretanto, sua capacidade de atuação permanece limitada diante do volume crescente de roupas colocadas anualmente no mercado.

Centros de triagem são indispensáveis para avançar a circularidade da moda brasileira

Tudo isso demonstra que centros de triagem são uma infraestrutura indispensável para aumentar a circulação de roupas usadas e evitar o envio aos aterros sanitários. Entretanto, sua capacidade de atuação permanece limitada diante do volume crescente de roupas colocadas anualmente no mercado. Ou seja, a expansão dessas iniciativas, embora necessária, não será suficiente para enfrentar isoladamente o problema da superprodução têxtil.

A ampliação da coleta, da reutilização e da reciclagem são um avanço importante, porém insuficiente diante do ritmo atual de produção de roupas. Mesmo iniciativas altamente estruturadas conseguem recuperar apenas uma fração do volume colocado anualmente no mercado, indicando que estratégias voltadas exclusivamente ao pós-consumo tendem a ter alcance limitado se não forem acompanhadas pela redução da produção e do consumo de novos produtos.

As iniciativas apresentadas mostram que um ecossistema brasileiro de circularidade têxtil está ganhando força, reunindo organizações sociais, empresas, startups, recicladoras, oficinas de reparo e plataformas digitais. Apesar desse avanço, o setor ainda enfrenta desafios importantes, como a falta de dados nacionais consolidados e de maior transparência sobre quantas peças são coletadas, para onde elas vão e quais impactos ambientais essas iniciativas realmente evitam. Tornar essas informações mais acessíveis pode ajudar a identificar as estratégias mais eficientes, orientar investimentos e fortalecer políticas públicas para ampliar a circularidade das roupas no Brasil.

Marina de Luca, coordenadora de mobilização, em visita ao centro de triagem

 

No final do dia, doar peças, ou comprar de segunda mão só tem um impacto ambiental positivo caso essa ação faça com que a pessoa deixe de comprar uma peça nova, coisa que sabemos que ainda não está acontecendo na quantidade necessária. Ou seja, é urgente diminuir a superprodução de itens de moda. Nenhuma prática vai dar conta de circular essa quantidade de peças novas que são colocadas no mundo em uma velocidade cada vez mais acelerada.

Texto por: Marina de Luca

Coordenadora de Mobilização Instituto Fashion Revolution Brasil; Pesquisadora da Universidade Federal da Bahia – MAASA; Fundadora do Moda Limpa

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