Como uma iniciativa no interior de São Paulo criou uma moeda circular para estender o ciclo de vida das peças e resgatar o valor humano da moda
A ideia de que a construção de uma moda circular passa pela transformação e criação de novos processos de produção e descarte de roupas já está consolidada. Porém, no atual contexto, em que a indústria da moda continua intensificando desigualdades socioeconômicas e impactos ambientais, é preciso ir além. A moda circular também deve ter a responsabilidade de reimaginar novos modelos econômicos com foco em justiça social e cultural, e não apenas repensar maneiras de produzir tecidos e reciclar peças.
Nesse sentido, abrir espaço para reimaginar um modelo econômico-circular exige questionar coisas simples do nosso dia a dia que parecem dadas, como o valor de uma roupa, de uma camiseta ou de um vestido. Atualmente, estamos tão imersos em um sistema financeiro no qual tudo é traduzido em dinheiro que parece não haver como questionar essa lógica.
Porém, isso é uma falácia. A forma como consumimos e atribuímos valor às coisas hoje faz parte de uma estrutura relativamente recente, aprofundada com a Revolução Industrial e o capitalismo moderno. Estamos falando de um contexto de cerca de 300 anos, que acelerou a nossa dependência da troca pelo dinheiro e consolidou o modelo linear de produção, consumo e descarte.
Questionar esse contexto nos dá a liberdade de ousar pensar em outras formas de organizar a vida econômica e social. Algumas delas, inclusive, podem ser provocativas, apesar de não serem necessariamente novas: e se o dinheiro não fosse a única forma de fazer uma troca? E se os próprios objetos pudessem funcionar como medida de valor?
Uma camiseta poderia valer uma camiseta. Uma calça poderia valer uma calça. Uma peça poderia ser trocada por outra de categoria semelhante, sem que o dinheiro precisasse entrar nessa equação, ao ponto de as próprias roupas se tornarem uma espécie de moeda.
A ideia pode parecer simples, até nada inovadora, mas traz um novo sentido para a moda: tira o consumo monetário do centro e devolve às roupas a sua utilidade, a sua história e o seu valor para além do material.
Da ideia à prática: novas realidades já existem
Durante a campanha do Setembro de Segunda Mão, realizada pelo Instituto Fashion Revolution Brasil, mais de 120 ações movimentam o país para questionar o sistema linear da moda. Uma dessas iniciativas vem de Itapetininga, no interior de São Paulo, onde Cínthia Mádero, Representante Local do movimento, deu vida a essa provocação ao criar o Roupix: uma moeda circular criada para estruturar os bazares de troca que ela organiza.
Na proposta de Cínthia, o Roupix funciona como uma moeda de troca baseada em equivalências. Ao chegar ao evento, a pessoa entrega as peças que trouxe para uma triagem: as roupas são divididas em cinco categorias (das mais básicas às mais elaboradas) e recebem um valor de 1 a 5 Roupix.
O estado de conservação também é levado em conta: peças em ótimo estado ganham bônus de pontuação, enquanto marcas de uso geram um pequeno desconto. Além disso, o que não passa na triagem por estar muito desgastado não é descartado no lixo comum, mas encaminhado para o ecoponto têxtil recém-lançado na cidade, também com o apoio da estilista.
Com os Roupix em mãos, a pessoa fica livre para “comprar” outras roupas na feira. A grande chave do projeto é a perenidade. Isso porque, como a moeda tem validade contínua, os participantes não precisam gastar tudo no mesmo dia. Na última edição do bazar de trocas, foram recebidas 508 peças e saíram 261; as que restaram, ficam no acervo para compor as próximas edições.
“Toda feira as pessoas voltam para trocar, porque nem sempre tem o que elas querem na hora que elas chegam. As pessoas ficam esperando a próxima feira pra poder ir usando os seus Roupix”, conta Cínthia.
O Roupix é a prova concreta de que outras formas de atribuir valor às coisas são possíveis e já estão sendo implementadas. Nessa nova realidade, as roupas continuam tendo utilidade mesmo quando o dinheiro sai de cena. De quebra, a circularidade ganha escala, as peças têm seu ciclo de vida estendido e a comunidade se fortalece, colocando o valor humano, finalmente, de volta ao centro.
Texto por: Claudia Castanheira
Coordenadora de Comunicação do Instituto Fashion Revolution Brasil